segunda-feira, 27 de julho de 2009

Jekyll & Hyde: As duas faces da alma



Um dos meus livros favoritos e um dos romances mais perfeitos da literatura universal, O Médico e o Monstro é a obra-mestra do escritor Robert Louis Stevenson (1850- 1894), até então conhecido por seus romances de aventuras e/ou policiais, como os célebres A Ilha do tesouro, As Novas Noites Árabes (ou Clube dos Suicidas), O Rapto e outros. Nasceu de um pesadelo que Stevenson teve.


O sucesso unânime de que tem aproveitado junto ao público e à crítica, desde sua publicação (1886), deve-se às inegáveis qualidades estéticas reveladas em O Médico e o Monstro: forte clima de apreensão, suspense, terror, e uma enorme perplexidade final, elementos que garantem a atenção do leitor do começo ao fim. Tudo costurado com uma linguagem supereficiente.

Narrativas inesquecíveis, como a menina que é brutalmente pisoteada, e o assassinato de Sir Danvers Carew. A prosa rica e sutil de Stevenson dá à história um profundo sentido de beleza literária e tensão. Perfeito casamento entre técnica e arte, imaginação e estilo, coerência ética e estética. Somente os escritores vitorianos conseguiram alcançar esses resultados artísticos, tal como Chesterton, De Quincey, Carroll e alguns outros. A prosa norte-americana é factual, pragmática no relato dos fatos, enquanto os britânicos narram fatos e strange cases com suprema habilidade, sempre temperando o relato com a mais fina reflexão crítica, ainda que ao seu modo empírico.


O cerne deste belíssimo livro é o modo como cada um de nós é feito de emoções e de desejos contraditórios: bons e maus. As duas faces da alma. Depois de mergulhar de cabeça nessa história, eu gosto de acreditar que haja um Hyde em cada um de nós. O lado mal que repousa na alma humana. A dicotomia entre o bem e o mal é um tema abordado desde os tempos bíblicos, transportando todos à decisão mais crucial de todas: O bem ou o mal? Na tentativa de ser bom, o homem sempre acaba trazendo o mal. Na maioria dos casos, as pessoas passam a vida inteira nessa batalha épica pelo trono da alma no território do caráter: quem devo ser? Bom ou mal? Jekyll ou Hyde? Stevenson nos mostra que a tentativa de tentar ser um é sempre um fracasso. Mas tentar viver em harmonia com os dois hemisférios da alma pode ser a chave para o equilíbrio. O homem nasceu para ser dois, não um, por isso é mais fácil tentar ser bom e mal, do que tentar ser bom ou mal. Stevenson afirma que “from both sides of my intelligence, the moral and the intellectual, I thus drew steadily nearer to the truth, by whose partial discovery I have been doomed to such a dreadful shipwreck: that man is not truly one, but truly two."

Em O Médico e o Monstro, obra que tanto me fascina, toda a moralidade vitoriana e calvinista parece não represar a emergência ou irrupção do real, da coisa, do mal, do primitivo que Stevenson tanto conhecia de suas viagens pelo mundo, do pecado via sensualidade lato sensu (claro que logo vem à cabeça Lewis Carroll, Oscar Wilde, Virginia Woolf, James Joyce), no erotismo reprimido, no sensacionalismo criminal, que povoam a arte literária vitoriana. Realiza-se nessa literatura, um deslocamento ou transferência, por assim dizer, da sensualidade amorosa para a criminosa, violando a tênue (ou intencionada) fronteira entre Eros e Tânatos.


Podemos observar aí o efeito Doppelgänger, da duplicidade, cuja operação mágica está pautada no espelho (como em Carroll) emergir do insólito ou unheimlich conforme estudado por Freud ao analisar Hoffmann (“Der Sandmann”). Em Stevenson há um tecido lingüístico, além do físico factual na relação dos personagens: Jekyll é um médico reputadíssimo, um verdadeiro cavalheiro, pode amar e pode matar (I kill está embutido em seu nome), enquanto Hyde vive escondido (hidden), podendo matar e amar igualmente. Conjuntos intersecionados.

Ao examinar essa parábola do dualismo que é O Médico e o Monstro, nota-se que o outro lado do humano retorna para ativar tendências latentes escondidas pelo ego social. Isso exemplifica, de maneira geral, a teoria de Freud da narrativa fantástica como o relato de um retorno ao reprimido: Hyde pode preencher os desejos de Jekyll de furtar, amar, ser violento, matar.

A fantasia de Stevenson nesse livro é muito mais que a alegoria do bem e do mal em guerra um com o outro. O próprio texto chama a atenção para o mal como uma categoria moral relativa, como uma noção imposta sobre a desordem natural. Jekyll operando seu ‘experimento enquanto está sob o domínio’, é alertado para o mundo do outro lado do espelho, pois este oferece-lhe um infinito números de ‘eus’. Ele vê a definição modista do caráter como limitada: o homem não é apenas dipsíquico, mas polipsíquico. Infinitamente ‘outro’. É, enfim, a alteridade da Pessoa.


O efeito Doppelgänger está presente mais como um estopim do que acaba minando o status quo em que o homem socializado, civilizado, fossilizado nos costumes e na hipocrisia social, acaba por perder seu senso do natural, sua função sensual no ritmo da natureza, seu senso propriamente antropológico perdido no caminho da caverna até o palácio de Buckingham. Graças à intuição do artista, o escritor foi tão longe quanto Freud ao contemplar as hordas primitivas e recolher um indivíduo como representação para uma sociedade profundamente individualista.

Essa narrativa gótica e de alto teor impressionista influenciou extraordinariamente, com seu poderoso símbolo, a literatura, o cinema e o teatro deste século, derivando daí todo um valor estético. Porém, somente o original de Stevenson encanta incondicionalmente. Praticamente imune ao cientificismo, Stevenson com poucas pinceladas conseguiu retratar de forma magistral a natureza humana.


Em O Médico e o Monstro, embora protagonize o elemento psicológico, jamais a narrativa se sobrecarrega em detrimento da diversidade estética. Para isso colaboram a conjetura, a hipótese, a observação detetivesca, o concerto/desconcerto das impressões das várias personagens que convergem para o clima de mistério. Trata-se de uma pintura à base de meios-tons, meias-verdades, meias-luzes, o fog e o tom cinza de Londres evocando a velha Edimburgo de Stevenson até a diálise final: seja no comportamento de Dr. Jekyll, nas suas palavras e mensagens escritas, nas impressões acerca de Mr. Hyde apresentadas pelos que conseguem vê-lo.


Aí está o clima premonitório da ambigüidade de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, uma outra história perfeita, que parte desse ponto. Porém a sutileza culmina na linguagem impressionista, atraente, com que Jekyll descreve suas sensações e juízos a respeito de Hyde.

O depoimento final do personagem, resulta sem dúvida, nas mais belas páginas descritivas estético-morais desse gênero. Só Kafka, embora com seu estilo alemão acintoso e chocante, em A Metamorfose, se logrou ser tão perfeito. Stevenson tão-somente com seu O Médico e o Monstro, consagrou-se como um verdadeiro titã da literatura universal.
Vale dizer, de forma espantosa.

“(...) E aconteceu que o sentido dos meus estudos científicos, que me conduziam à mística e às transcendências, suscitou e derramou imensa claridade nesse caráter de guerra permanente entre o bem e o mal em que me debatia (...)”

Henry Jekyll

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A 9ª Sinfonia de Stanley Kubrick


"... Tinha eu, quer dizer, Alex e meus três drugues, quer dizer, Pete, Georgie e o Tapado, o Tapado sendo realmente tapado, e nós estávamos sentados no Leite-bar Korova, rassudocando o que fazer da noite, num inverno agitado, preto e gelado,uma merda, se bem que seco. O Leite-bar Korova era um méssito de tomar leite-com, e vós, ó meus irmãos, já podem ter se esquecido como eram aqueles méssitos, com as coisas mudando tão escorre hoje em dia e todo mundo muito rápido pra esquecer, os jornais também não são muito lidos. Bom, o que vendiam lá era leite com alguma coisa. Não tinham licença pra vender bebida, mas também ainda não tinha nenhuma lei contra prodar algumas das novas véssiches que eles costumavam botar no moloco, de modo que agente podia pitar ele com velocete, ou sintemesque, ou drencrom, ou uma ou duas outras véssiches que deixavam agente uns bons e tranquilos quinze minutos horrorshow admirando Bog e Todos os Seus Bem Aventurados Anjos e Santos no sapato esquerdo, e com luzes pipocando dentro do mosgue. Ou se podia pitar leites com facas, como agente costumava dizer, e isso deixava agente afiado e pronto pra uma sujeira de vinte-contra-um, e era isso que agente estava pitando naquela noite com que eu estou começando a história..."

O ano é 1962 e o trecho acima foi retirado do genial livro Laranja Mecânica de Anthony Burguess. Só em 1971 a obra ganharia versão cinematografica dirigida pelo grande Stanley Kubrick

É muito difícil julgar um filme como este. Algo frio e violento, ainda pode ser divertido, sarcástico e visionário? Quando se trata de Laranja Mecânica, sim!
Laranja Mecânica, não é um filme de terror, mas é um dos filmes mais perturbadores de todos os tempos. Perturbador, polêmico, assustador, reflexivo, genial, angustiante e inigualável. Esta obra é considerada uma das melhores já feitas. Um dos filme mais bem rodados na historia do cinema! Todas as cenas são harmoniosas, como se existisse uma coreografia, uma dança. Simplesmente genial!


A trama se passa em um futuro onde as ruas são dominadas por gangues praticantes da violência. Alex, o narrador, é o líder de uma dessas gangues. Com seus três amigos comparsas apelidados de drugues ("amigos" em russo), Alex passa as noites aterrorizando quem quer que ele possa encontrar. Pisoteiam mendigos, brigam com outras gangues, andam de carro na contra mão, invadem casas e estupram mulheres enquanto cantam Singin’ in the Rain. Tudo isso em uma única noite. Um verdadeiro Horrorshow (pra quem assistiu o filme sabe do que estou falando).


Uma noite, depois de matar uma mulher, ele acaba sendo preso depois de ser entregue por sua própria gangue pegando uma pena de 14 anos. Enquanto na prisão, ele ouve boatos sobre um bilhete grátis para fora da cadeia, e tudo que ele tem que fazer é ser uma cobaia para um experimento científico.
Depois de se submeter a uma lavagem cerebral feita por cientistas, Alex volta à civilização como um homem livre e bom. Passa ser uma laranja mecânica. Como Roger Waters costumava cantar: "... just another brick in the wall".

No entanto, a experiência tem alguns efeitos colaterais que não foram previstos, qualquer ato de violência causa nele um enorme mal estar. Alex é deixado desajeitado com o seu passado e suas vítimas querendo vingança sobre ele. Uma terrível reviravolta na vida dele. Esse é apenas o começo de uma experiência inesquecível.

O filme deveria ser uma obra menor do Kubrick. Depois de seu grandioso filme, 2001 (que na minha opinião está no topo como o melhor filme do diretor), ele pretendia fazer algo mais “tranquilo”, só pra relaxar. Mas Kubrick, com todo o seu perfeccionismo, não poderia deixar de fazer mais uma obra-prima. O filme, em todo o seu esplendor, é uma experiência que provávelmente jamais se esquece. Seus personagens, seu estilo, seu tema e seu material explícito - o filme todo combina com a criação de um maravilhoso conjunto que irá ficar na cabeça de muita gente por muito tempo.


O grandioso Stanley Kubrick tem uma maneira particular de visualizar seus filmes. Laranja Mecânica tem um look totalmente fora do seu tempo, aproximando-se de uma Inglaterra futurista, e sua seqüência de tortura na qual Alex é regenerado também parece como um filme de ficção científica. No entanto, não se trata deste tipo de longa-metragem. É realmente difícil de categorizar o tipo de filme por ter um pouco de tudo: sátiras sociais, drama, momentos de comédia e até um musical para uma clássica seqüência de estupro aterrorizante.

Aqui, o ainda jovem Malcolm McDowell (Evilenko- 2004; Caligula- 1979)) explora o caráter de uma vida com imaginação vívida e com tremenda descrição. Aos olhos do público, Alex DeLarge é desprezível, aterrador, doente e, por fim, uma encarnação mais realista de todos os nossos receios e preocupações. Mas seu personagem não vê a si mesmo como uma pessoa doente. A chave para isso é, na sua narrativa durante o filme, como se ele fosse uma vítima da civilização. McDowell nos dá um exemplo brilhante de qualidade superior de atuação.
Na luta constante para afirmar sua individualidade, das piores maneiras possíveis contra uma sociedade hipócrita, que longe de conseguir resolver suas contradições, se utiliza de métodos repressivos como se pudesse extirpar o mal, ignorando o fato de que esse é inerente ao homem.


Laranja Mecânica é um filme pesado não só pela extrema violência e jogos de imagens, mas por causa de seus ideais, crenças e filosofia que o livro traz. Não deixando de lado, é claro, as mais de 200 gírias criadas pelo autor, inspirado em expressões russas e neologismo da língua inglesa.
Concluindo. Este é possivelmente um dos melhores filmes de todos os tempos. Não existe um diálogo sem sentido. Para não mencionar uma soberba trilha sonora (desde Singin’ In The Rain até a 9ª Sinfonia de Beethoven). Se você faz parte do mundo dos cinéfilos, você deve assistir sem interrupção! Deixe Stanley Kubrick levá-lo sobre o lado emocional cinematográfico de sua vida. Laranja Mecânica vai mudar seu conceito. Você nunca mais vai assistir Cantando na Chuva com os mesmos olhos. Você nunca mais vai ouvir Beethoven do mesmo modo. Você vai mudar o seu jeito de ver o mundo. Você vai mudar seu jeito de ver o cinema.



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P.

(des)Construção de uma vida


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Construção - C. Buarque
......


Um disco fundamental da nossa música popular lançado em 1971 quando ainda se vivia na contradição de crescimento econômico misturado com ingredientes de torturas e arbítrio. Parece difícil acreditar que numa época em que todas as canções eram encaminhadas para uma análise do departamento de censura da Polícia Federal. Uma em especial, tivesse sido aprovada sem cortes, trata-se de Construção de Chico Buarque, que da título a seu LP lançado naquele ano, o primeiro após seu retorno do exílio.

Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico Buarque, nascido em junho de 1944, iniciou sua carreira na década de 1960 destacando-se como músico, poeta, escritor e dramaturgo.
Chico Buarque não só é a encarnação da música brasileira (junto de outros grandes nomes como Dorival Caymmi e Tom Jobim) como também uma grande influencia sobre toda uma geração.

Considerada uma obra-prima de nossa canção popular, Construção conta a história de um trabalhador que acorda numa manhã como qualquer outra e se confronta com seus ultimos passos. Ele se mistura à cidade (talvez a mesma cidade que atirou pedra na Geni, e a mesma cidade a qual as pessoas foram para praça dançar uma Valsinha), deixa-se fazer parte dela, é engolido pela cidade, como Jonas e a baleia, e isso o sufoca pois, ao mesmo tempo que ele se entrega para esta imensidão, ele, de certa maneira, quer manter sua individualidade. Mas sabemos que isso não será uma tarefa facil vivendo numa sociedade em que a burrice limitada dos censores da ditadura governa as ruas. Por isso ele se deixa engolir pela baleia.


Quando ele sai de casa pela derradeira vez, "beijou sua mulher com se fosse a ultima / a única ", parece que, num nível subliminar, ele já sabe que neste dia será o fim de seu sufoco. O que nos remete a súbita pergunta: foi um acidente ou foi suicídio?
A música ao longo da execução vai ficando cada vez mais tensa e acaba de maneira brusca, para mim passando a impressão crescente da tensão de um homem que resolve parar de viver.
Mas Chico não entrega o ouro tão facil assim, por isso cabe ao leitor achar a solução mais conveniente.
Construção é genial do começo ao fim, começando pelo titulo que tanto serve para definir construções civis e operarios quanto a construção da vida do personagel principal, que por sua vez é retratado com simplicidade em meio a cidade, onde o ser humano aí não passa de uma estatística.

"Amou daquela vez como se fosse máquina/ Beijou sua mulher como se fosse lógico/ Ergueu no patamar quatro paredes flácidas" Essa passagens podem ser interpretadas como o personagem principal se entregando, finalmente, à monotonia que sua vida se tornou (embora isso já tivesse sido retratado em Cotidiano, foi só agora que o personagem passa a aceitar o fato), passando assim para a proxima etapa: sua metamorfose. Ao longo da letra, podemos perceber que o personagem vai se "coisificando" lentamente, passando de príncipe, tímido, bêbado, até se tornar nada mais que um pacote flácido. A consciência social de Chico em Construção, como em toda a sua obra, é evidente. Sabe o poeta que a poesia é o seu instrumento, o seu veículo de denúncia, de crítica, de representação de uma realidade desumana e injusta, pois é preciso que o homem não seja apenas “máquina” nem um “pacote flácido”. Mas que signifique. Que tenha um papel nos pilares da sociedade. Que também possa exercer sua liberdade. Assim deve ser visto pela sociedade. Chico aponta para uma estrutura social que não gostaria que existisse, para uma metamorfose desumana do homem que não deve persistir. Em Construção, o sujeito é generalizado. O homem é visto, em relação à sociedade, de maneira trágica, oprimido, marcado pela inutilidade. Ele constrói, mas é destruído.


Eu gosto de pensar que essa música ganhou uma versão em primeira pessoa em Cálice, onde mostra um homem aflito indo de encontro com seu fim. " Quero gritar um grito desumano / Que é uma maneira de ser escutado". Finalizando na individualidade fatal: Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado / Quero inventar o meu próprio pecado / Quero morrer do meu próprio veneno / Quero perder de vez tuá cabeça / Minha cabeça perder teu juizo / Quero cheirar fumaça de óleo diesel / Me embriagar até que alguém me esqueça". E na manhã seguinte ele se despede de sua mulher e filhos para morrer na contramão, atrapalhando o sábado.

Construção se supera por ter uma melodia que se encaixa perfeitamente à letra. Do ponto de vista gramático, vale ressaltar que Construção tem uma métrica perfeita pois todas as últimas palavras dos versos são proparoxítonas. Um dos efeitos mais magníficos do texto é o fato de que, em cada nível observado, vê-se uma construção diferente. Na estrutura superficial, pode-se imaginar um edifício sendo levantado; na estrutura intermediária, uma história de vida e morte, já que o operário tem seu dia mostrado, bem como sua morte desimportante e ordinária; por fim, na estrutura profunda, vê-se que é um retrato da nossa organização social, em que um homem é tão substituível quanto um tijolo, onde pessoas se sobrepõem umas às outras como os andares de um arranha-céus.

Ao longo da música, podemos observar o cotidiano de um brasileiro que trabalho, ama, vive e sofre num Brasil ditatorial. Também é importante ressaltar o fato de que Chico procurou analisar a condição humana e falível do trabalhador. Daquele que sai de casa e deixa mulher e filhos, e que bebe uma cachaça e é tratado como lixo, e que no fim espera apenas que "Deus lhe pague". Além da genial crítica à sociedade industrial que transforma o indivíduo em uma parte integrante da paisagem urbana e o torna uma"coisa urbana", Chico consegue jogar com o vocabulário durante a música, pois com as mesmas palavras conota um sentido diferente em cada parte da letra.

A música em si, é o resultado de uma vivência não solitária, que contrabalança o jogo mental e garante o pé no chão. A vivência dá a carga oposta à solidão, e vem da solidariedade - que é o principal conteúdo social. Mas trata-se de uma coisa intuitiva, não intencional: uma obra única, uma música que choca que comove, que revolta, tudo isso em minutos. Enxergamos, nesta musica, um Brasil sem maquiagem, o semblante verde e amarelo, nossa história crua e nua e a pura genialidade de Chico Buarque.
Em Construção, tudo entra na cabeça em tumulto e sai em silêncio.



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P.