
Um dos meus livros favoritos e um dos romances mais perfeitos da literatura universal, O Médico e o Monstro é a obra-mestra do escritor Robert Louis Stevenson (1850- 1894), até então conhecido por seus romances de aventuras e/ou policiais, como os célebres A Ilha do tesouro, As Novas Noites Árabes (ou Clube dos Suicidas), O Rapto e outros. Nasceu de um pesadelo que Stevenson teve.

O sucesso unânime de que tem aproveitado junto ao público e à crítica, desde sua publicação (1886), deve-se às inegáveis qualidades estéticas reveladas em O Médico e o Monstro: forte clima de apreensão, suspense, terror, e uma enorme perplexidade final, elementos que garantem a atenção do leitor do começo ao fim. Tudo costurado com uma linguagem supereficiente.
Narrativas inesquecíveis, como a menina que é brutalmente pisoteada, e o assassinato de Sir Danvers Carew. A prosa rica e sutil de Stevenson dá à história um profundo sentido de beleza literária e tensão. Perfeito casamento entre técnica e arte, imaginação e estilo, coerência ética e estética. Somente os escritores vitorianos conseguiram alcançar esses resultados artísticos, tal como Chesterton, De Quincey, Carroll e alguns outros. A prosa norte-americana é factual, pragmática no relato dos fatos, enquanto os britânicos narram fatos e strange cases com suprema habilidade, sempre temperando o relato com a mais fina reflexão crítica, ainda que ao seu modo empírico.

O cerne deste belíssimo livro é o modo como cada um de nós é feito de emoções e de desejos contraditórios: bons e maus. As duas faces da alma. Depois de mergulhar de cabeça nessa história, eu gosto de acreditar que haja um Hyde em cada um de nós. O lado mal que repousa na alma humana. A dicotomia entre o bem e o mal é um tema abordado desde os tempos bíblicos, transportando todos à decisão mais crucial de todas: O bem ou o mal? Na tentativa de ser bom, o homem sempre acaba trazendo o mal. Na maioria dos casos, as pessoas passam a vida inteira nessa batalha épica pelo trono da alma no território do caráter: quem devo ser? Bom ou mal? Jekyll ou Hyde? Stevenson nos mostra que a tentativa de tentar ser um é sempre um fracasso. Mas tentar viver em harmonia com os dois hemisférios da alma pode ser a chave para o equilíbrio. O homem nasceu para ser dois, não um, por isso é mais fácil tentar ser bom e mal, do que tentar ser bom ou mal. Stevenson afirma que “from both sides of my intelligence, the moral and the intellectual, I thus drew steadily nearer to the truth, by whose partial discovery I have been doomed to such a dreadful shipwreck: that man is not truly one, but truly two."
Em O Médico e o Monstro, obra que tanto me fascina, toda a moralidade vitoriana e calvinista parece não represar a emergência ou irrupção do real, da coisa, do mal, do primitivo que Stevenson tanto conhecia de suas viagens pelo mundo, do pecado via sensualidade lato sensu (claro que logo vem à cabeça Lewis Carroll, Oscar Wilde, Virginia Woolf, James Joyce), no erotismo reprimido, no sensacionalismo criminal, que povoam a arte literária vitoriana. Realiza-se nessa literatura, um deslocamento ou transferência, por assim dizer, da sensualidade amorosa para a criminosa, violando a tênue (ou intencionada) fronteira entre Eros e Tânatos.

Podemos observar aí o efeito Doppelgänger, da duplicidade, cuja operação mágica está pautada no espelho (como em Carroll) emergir do insólito ou unheimlich conforme estudado por Freud ao analisar Hoffmann (“Der Sandmann”). Em Stevenson há um tecido lingüístico, além do físico factual na relação dos personagens: Jekyll é um médico reputadíssimo, um verdadeiro cavalheiro, pode amar e pode matar (I kill está embutido em seu nome), enquanto Hyde vive escondido (hidden), podendo matar e amar igualmente. Conjuntos intersecionados.
Ao examinar essa parábola do dualismo que é O Médico e o Monstro, nota-se que o outro lado do humano retorna para ativar tendências latentes escondidas pelo ego social. Isso exemplifica, de maneira geral, a teoria de Freud da narrativa fantástica como o relato de um retorno ao reprimido: Hyde pode preencher os desejos de Jekyll de furtar, amar, ser violento, matar.
A fantasia de Stevenson nesse livro é muito mais que a alegoria do bem e do mal em guerra um com o outro. O próprio texto chama a atenção para o mal como uma categoria moral relativa, como uma noção imposta sobre a desordem natural. Jekyll operando seu ‘experimento enquanto está sob o domínio’, é alertado para o mundo do outro lado do espelho, pois este oferece-lhe um infinito números de ‘eus’. Ele vê a definição modista do caráter como limitada: o homem não é apenas dipsíquico, mas polipsíquico. Infinitamente ‘outro’. É, enfim, a alteridade da Pessoa.

O efeito Doppelgänger está presente mais como um estopim do que acaba minando o status quo em que o homem socializado, civilizado, fossilizado nos costumes e na hipocrisia social, acaba por perder seu senso do natural, sua função sensual no ritmo da natureza, seu senso propriamente antropológico perdido no caminho da caverna até o palácio de Buckingham. Graças à intuição do artista, o escritor foi tão longe quanto Freud ao contemplar as hordas primitivas e recolher um indivíduo como representação para uma sociedade profundamente individualista.
Essa narrativa gótica e de alto teor impressionista influenciou extraordinariamente, com seu poderoso símbolo, a literatura, o cinema e o teatro deste século, derivando daí todo um valor estético. Porém, somente o original de Stevenson encanta incondicionalmente. Praticamente imune ao cientificismo, Stevenson com poucas pinceladas conseguiu retratar de forma magistral a natureza humana.

Em O Médico e o Monstro, embora protagonize o elemento psicológico, jamais a narrativa se sobrecarrega em detrimento da diversidade estética. Para isso colaboram a conjetura, a hipótese, a observação detetivesca, o concerto/desconcerto das impressões das várias personagens que convergem para o clima de mistério. Trata-se de uma pintura à base de meios-tons, meias-verdades, meias-luzes, o fog e o tom cinza de Londres evocando a velha Edimburgo de Stevenson até a diálise final: seja no comportamento de Dr. Jekyll, nas suas palavras e mensagens escritas, nas impressões acerca de Mr. Hyde apresentadas pelos que conseguem vê-lo.

Aí está o clima premonitório da ambigüidade de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, uma outra história perfeita, que parte desse ponto. Porém a sutileza culmina na linguagem impressionista, atraente, com que Jekyll descreve suas sensações e juízos a respeito de Hyde.
O depoimento final do personagem, resulta sem dúvida, nas mais belas páginas descritivas estético-morais desse gênero. Só Kafka, embora com seu estilo alemão acintoso e chocante, em A Metamorfose, se logrou ser tão perfeito. Stevenson tão-somente com seu O Médico e o Monstro, consagrou-se como um verdadeiro titã da literatura universal.
Vale dizer, de forma espantosa.
“(...) E aconteceu que o sentido dos meus estudos científicos, que me conduziam à mística e às transcendências, suscitou e derramou imensa claridade nesse caráter de guerra permanente entre o bem e o mal em que me debatia (...)”
Henry Jekyll








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