
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Construção - C. Buarque
......

Um disco fundamental da nossa música popular lançado em 1971 quando ainda se vivia na contradição de crescimento econômico misturado com ingredientes de torturas e arbítrio. Parece difícil acreditar que numa época em que todas as canções eram encaminhadas para uma análise do departamento de censura da Polícia Federal. Uma em especial, tivesse sido aprovada sem cortes, trata-se de Construção de Chico Buarque, que da título a seu LP lançado naquele ano, o primeiro após seu retorno do exílio.
Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico Buarque, nascido em junho de 1944, iniciou sua carreira na década de 1960 destacando-se como músico, poeta, escritor e dramaturgo.
Chico Buarque não só é a encarnação da música brasileira (junto de outros grandes nomes como Dorival Caymmi e Tom Jobim) como também uma grande influencia sobre toda uma geração.
Considerada uma obra-prima de nossa canção popular, Construção conta a história de um trabalhador que acorda numa manhã como qualquer outra e se confronta com seus ultimos passos. Ele se mistura à cidade (talvez a mesma cidade que atirou pedra na Geni, e a mesma cidade a qual as pessoas foram para praça dançar uma Valsinha), deixa-se fazer parte dela, é engolido pela cidade, como Jonas e a baleia, e isso o sufoca pois, ao mesmo tempo que ele se entrega para esta imensidão, ele, de certa maneira, quer manter sua individualidade. Mas sabemos que isso não será uma tarefa facil vivendo numa sociedade em que a burrice limitada dos censores da ditadura governa as ruas. Por isso ele se deixa engolir pela baleia.
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Quando ele sai de casa pela derradeira vez, "beijou sua mulher com se fosse a ultima / a única ", parece que, num nível subliminar, ele já sabe que neste dia será o fim de seu sufoco. O que nos remete a súbita pergunta: foi um acidente ou foi suicídio?
A música ao longo da execução vai ficando cada vez mais tensa e acaba de maneira brusca, para mim passando a impressão crescente da tensão de um homem que resolve parar de viver.
Mas Chico não entrega o ouro tão facil assim, por isso cabe ao leitor achar a solução mais conveniente.
Construção é genial do começo ao fim, começando pelo titulo que tanto serve para definir construções civis e operarios quanto a construção da vida do personagel principal, que por sua vez é retratado com simplicidade em meio a cidade, onde o ser humano aí não passa de uma estatística.
"Amou daquela vez como se fosse máquina/ Beijou sua mulher como se fosse lógico/ Ergueu no patamar quatro paredes flácidas" Essa passagens podem ser interpretadas como o personagem principal se entregando, finalmente, à monotonia que sua vida se tornou (embora isso já tivesse sido retratado em Cotidiano, foi só agora que o personagem passa a aceitar o fato), passando assim para a proxima etapa: sua metamorfose. Ao longo da letra, podemos perceber que o personagem vai se "coisificando" lentamente, passando de príncipe, tímido, bêbado, até se tornar nada mais que um pacote flácido. A consciência social de Chico em Construção, como em toda a sua obra, é evidente. Sabe o poeta que a poesia é o seu instrumento, o seu veículo de denúncia, de crítica, de representação de uma realidade desumana e injusta, pois é preciso que o homem não seja apenas “máquina” nem um “pacote flácido”. Mas que signifique. Que tenha um papel nos pilares da sociedade. Que também possa exercer sua liberdade. Assim deve ser visto pela sociedade. Chico aponta para uma estrutura social que não gostaria que existisse, para uma metamorfose desumana do homem que não deve persistir. Em Construção, o sujeito é generalizado. O homem é visto, em relação à sociedade, de maneira trágica, oprimido, marcado pela inutilidade. Ele constrói, mas é destruído.

Eu gosto de pensar que essa música ganhou uma versão em primeira pessoa em Cálice, onde mostra um homem aflito indo de encontro com seu fim. " Quero gritar um grito desumano / Que é uma maneira de ser escutado". Finalizando na individualidade fatal: Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado / Quero inventar o meu próprio pecado / Quero morrer do meu próprio veneno / Quero perder de vez tuá cabeça / Minha cabeça perder teu juizo / Quero cheirar fumaça de óleo diesel / Me embriagar até que alguém me esqueça". E na manhã seguinte ele se despede de sua mulher e filhos para morrer na contramão, atrapalhando o sábado.
Construção se supera por ter uma melodia que se encaixa perfeitamente à letra. Do ponto de vista gramático, vale ressaltar que Construção tem uma métrica perfeita pois todas as últimas palavras dos versos são proparoxítonas. Um dos efeitos mais magníficos do texto é o fato de que, em cada nível observado, vê-se uma construção diferente. Na estrutura superficial, pode-se imaginar um edifício sendo levantado; na estrutura intermediária, uma história de vida e morte, já que o operário tem seu dia mostrado, bem como sua morte desimportante e ordinária; por fim, na estrutura profunda, vê-se que é um retrato da nossa organização social, em que um homem é tão substituível quanto um tijolo, onde pessoas se sobrepõem umas às outras como os andares de um arranha-céus.
Ao longo da música, podemos observar o cotidiano de um brasileiro que trabalho, ama, vive e sofre num Brasil ditatorial. Também é importante ressaltar o fato de que Chico procurou analisar a condição humana e falível do trabalhador. Daquele que sai de casa e deixa mulher e filhos, e que bebe uma cachaça e é tratado como lixo, e que no fim espera apenas que "Deus lhe pague". Além da genial crítica à sociedade industrial que transforma o indivíduo em uma parte integrante da paisagem urbana e o torna uma"coisa urbana", Chico consegue jogar com o vocabulário durante a música, pois com as mesmas palavras conota um sentido diferente em cada parte da letra.
A música em si, é o resultado de uma vivência não solitária, que contrabalança o jogo mental e garante o pé no chão. A vivência dá a carga oposta à solidão, e vem da solidariedade - que é o principal conteúdo social. Mas trata-se de uma coisa intuitiva, não intencional: uma obra única, uma música que choca que comove, que revolta, tudo isso em minutos. Enxergamos, nesta musica, um Brasil sem maquiagem, o semblante verde e amarelo, nossa história crua e nua e a pura genialidade de Chico Buarque.
Em Construção, tudo entra na cabeça em tumulto e sai em silêncio.

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P.

Na sua opinião, as três músicas citadas se interligam, achei perfeito isso, o modo como explicou fica muito perceptível. Porém, prefiro acreditar que ele não se suicidou, ele poderia até estar se sentindo farto de sua vida rotineira, cansado, mas nada que o fizesse mergulhar do alto de uma construção para a morte, talvez sentiu que algo lhe aconteceria, pressentimentos, e isso fez com que naquele dia enchergasse tudo como se fosse a última vez.
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